segunda-feira, 16 de abril de 2012

Onde você guarda o seu preconceito?

Sempre me surpreendo com o resultado de uma "brincadeira" que costumo fazer. Use de cobaia um grupo de desavisados. Tudo o que você precisa fazer são duas perguntas: "quem se acha preconceituoso" e "quem conhece alguém preconceituoso". Não importa quem sejam as cobaias, o resultado é espantosamente similar todas as vezes: quase ninguém se considera preconceituoso, mas todos (e aí sem exceção) conhecem um preconceituoso. Disso, o Instituto Lua de Pesquisas deduz que: a) só tem pessoas maravilhosas ao meu redor ou b) falta a gente enxergar os nossos próprios preconceitos. Levando em consideração a hipótese b, pensemos sobre isso.
Fazia um tempo que eu estava querendo escrever esse post, mas eu achei que ia chover no molhado, porque já fiz um enorme texto sobre gordos. Mas é incrível como tem assunto para preconceito. Esses dias, eu estava passeando pelo Facebook e percebi que tem mais um meme chato rolando. "Te sento a vara moleque baitola". Fora o preconceito óbvio de que todos os gays (ou todos os que "parecem" gays, afinal gays são todos iguais) merecem levar vara, demonstração de poder pelo ser dominante da sociedade, o homem másculo, chucro, varão, contra a sua vontade alô, estupro corretivo!, tem o preconceito que é muito mais comum, muito mais corrente e muito mais "inofensivo": todo emo, colorido, modernete é baitola e não merece nenhum respeito, tá aí pra ser espezinhado mesmo. Quem nunca trollou um emo, que atire a primeira calça colorida. Mas pegar no pé de meme é bobagem, é só diversão, ai, tem que ver maldade em tudo.
Para nossa completa satisfação, não precisa ser homofóbico. E é feio, tá na moda e dá cadeia. Podemos recorrer a um clássico brasileiro, a loira burra. Toda loira é burra e nós sabemos disso desde pequenininhos. Afinal, a Carla Perez disse que é com "i, de iscola", prova irrefutável de que toda loira é burra. E não é por maldade, mas é comum ouvir um TINHA QUE SER LOIRA. E é aqui eu pego no pé: homem loiro é burro? Não. Então o que a gente tem pra analisar aí não é só um preconceito contra as loiras, mas contra as mulheres no geral. Nessa simpática análise da mulher loira, ela tem nome científico: Loirus burrus. Ela é tão burra, mas tão burra que nem é da mesma espécie desse infeliz cartunista. E ele ainda explica, é que a "expressão apavalhada é natural da espécie". Fora isso, ela é frívola, passa a maior parte do tempo cuidando do cabelo, mede-se o valor de uma loira pelo tamanho de suas próteses de silicone. Suas pernas são tortas porque ela transa demais (como todo objeto que se desgasta pelo uso).
De todas as críticas que se pode fazer ao padrão "loira burra", que sim, a Carla Perez ajudou a criar, nenhuma delas é consistente. Não se leva em consideração que a mulher foi coisificada, virou produto e vende, como vende. Que a dança da bundinha erotizou crianças inconscientemente. Que as letras tratam sexo como um privilégio do homem que a mulher tem que satisfazer. E tem tudo isso, na mesma loira burra que não sabe soletrar.
E só mais um exemplo clássico da internet, que é coisa de pobre. A primeira coisa é: não economize. Juntar o sabonete velho com o novo? AFF, COISA DE POBRE. Não se pode economizar nada, o melhor de não ser pobre é poder esbanjar muito. E não se dá pra confiar muito em pobre, que acaba roubando a tv a cabo do vizinho. Ricos pagam pela sua televisão, que os pobres não tem direito. Ao invés de se questionar o porque o poder de compra é que faz o pobre motivo de chacota, simplesmente se associa a pobreza a mau caráter, falta de bom gosto (afinal, Orkut é feio, está fora de moda, lixo virtual). Afinal, o que de melhor temos, o que nos separa dos animais (menos das loiras) é que consumimos. E quem nunca?

Tudo isso para dizer que a brincadeira lá em cima está certa. Ninguém é preconceituoso, porque esse é o jeito com que ele se mantém. É mais fácil espalhar o preconceito inocentemente, pelas piadas do que incitando o ódio. Preconceito se desfaz tomando consciência dele. Não é fácil. Nós somos criados numa sopinha preconceituosa. Nadar pra fora disso e respirar geralmente dói. Te faz uma pessoa chata que implica com as postagens do Facebook e não sabe rir de nada.
Mas, como toda motivação política, ninguém disse que ia ser divertido.

E os meus preconceitos? É, eles seguem aqui. Eu tento me desfazer deles, nem sempre consigo. Tomar consciência já tem me satisfeito, afinal... Eu tenho um amigo preconceituoso, mas eu não.

4 comentários:

  1. O post é da Lua, minha amiga e parceira de blog conscientizador

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  2. tanto faz, amora (digo, alice). é tudo nosso. é tudo de todo mundo.

    (steal this blog.)

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